sábado, 23 de setembro de 2006

A Maçonaria e a Religião

Muita gente tem assumido a existência de uma incompatibilidade profunda entre a Maçonaria, ou entre os seus princípios e a Religião, quer em termos restritos, quer em termos latos.
Esta assunção toma um carácter ainda mais estranho, quando existe a ideia de que na Maçonaria, existem referências, seja a livros sagrados (Bíblia, Alcorão, Tora, ... etc.) seja a apóstolos (designadamente a S. João) seja ainda ao conceito de “Grande Arquitecto do Universo”.
Para quem não conheça, tudo isto toma um aspecto quase de uma actividade sombria e ritualista com algum “paganismo” à mistura. Para esta imagem, tem contribuído, quer a “discrição” que caracteriza a vida e a actividade maçónica, no “fazer” e “construir” sem se esperar qualquer reconhecimento público, quer a postura oficial, nomeadamente da Igreja Católica sobre a Maçonaria, decorrente da excomunhão que por aquela lhe foi feita expressamente no passado em relação a católicos maçons, atitude que tem sofrido progressivamente novos contornos de direccionamento para todos aqueles que atentem contra a Igreja Católica sem menção expressa de serem maçons.
Para a compreensão deste posicionamento das duas entidades ou organizações, torna-se necessário compreender, não só os princípios e filosofias que as regem, como também a interpretação de cada uma delas sobre a outra, o que, naturalmente nem sempre é fácil, porquanto ambas assentam em princípios fundamentais da vida em sociedade.

Por um lado, a Maçonaria ao não aceitar quaisquer dogmas, ou melhor ainda, não aceitar a imposição de quaisquer dogmas, deixa a cada indivíduo a liberdade de escolha das suas convicções, nomeadamente religiosas, e assim, todas as religiões (incluindo a atitude ateísta e agnóstica) assumem igual importância e respeito, podendo o maçon, para acto de juramento, adoptar o livro que entenda como sagrado, seja este de carácter religioso ou outro em alternativa, designadamente a Constituição de Andersen, tido como basilar e regulador na actividade maçónica.
Assim, a referência ao “Grande Arquitecto do Universo” procura personificar indistintamente a entidade sagrada para cada maçon, independentemente da sua convicção religiosa, para que assim, e de forma universal, todos os maçons se sintam unidos na sua actuação e respeito mútuo dos seus credos.

Por outro lado, e apesar de a Igreja Católica ter contado entre o clero, figuras importantes que foram igualmente maçons, tem adoptado e mantido uma postura de distanciamento em relação à Maçonaria, não revendo nesta uma actuação que lhe conceda particular atenção ou protagonismo especiais. Para esta situação, têm contribuído igualmente situações de crispação, sobretudo quando a Igreja Católica e Governos se encontraram próximos nas suas actuações e posicionamentos de Estado, que de algum modo colidiram com os princípios maçónicos, nomeadamente quando estavam em causa os direitos fundamentais do pensamento livre dos cidadãos. Foi exemplo disso, a situação anterior a 1974 em que o Estado e a Igreja Católica assumiam uma atitude política, em muitas casos cúmplice, enquanto toda a actividade maçónica estava proibida, sendo os maçons, profusamente perseguidos e presos, face aos seus ideais de Liberdade e de Justiça que não se coadunavam com política de ditadura.

É assim, fácil de concluir, que a Maçonaria e a Religião, qualquer que seja o seu credo, não têm porque ter quaisquer antagonismos, sendo de esperar que tanto a Maçonaria como as várias religiões, em que a Igreja Católica seja uma delas, em coro, não negligenciem nem ignorem nem promovam quaisquer situações de injustiça ou outras em que estejam em causa os valores da vida e da dignidade humanas.
Deste modo seria e será de esperar que ambas, em coro e de forma natural e implícita, defendam a evolução do indivíduo, com base nos princípios morais e cívicos universalmente aceites como de bons costumes, em que todo o Homem deve ser livre, promover a Honra e a Justiça, alcançando a evolução interior, com base no seu Trabalho, no respeito pela Vida e numa atitude Solidária e Fraternal.

Autor: Sheikh

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

O Templo de Salomão

Muitas pessoas se questionam sobre a Maçonaria, sobre o que fazem os maçons e onde se reúnem. Esta curiosidade aumenta exponencialmente, quando se falam em rituais, lojas e templos, com referência em particular ao Templo de Salomão, com todo o mistério que este encerra, assim como sobre o próprio rei que o mandou construir e quem o concebeu e construiu.
Com efeito, os maçons reúnem-se em assembleias em locais discretos, ao abrigo da indiscrição, com o objectivo de aí trabalharem com o recolhimento e a dedicação que a actividade maçónica reclama, de paz e harmonia, sem que o espaço e vida exterior perturbem o local de reunião, que se quer calmo e tranquilo.
Inicialmente, estes locais de reunião, designados por “Templos”, podiam ser quaisquer, e assim se chamam, não porque neles se exerçam actividades de adoração pagânica ou outra, qualquer que seja a sua natureza, mas essencialmente por alegoria ao Templo de Salomão e ao seu significado, que se tornou ao longo dos tempos, uma referência incontornável da sabedoria e do desejo da evolução do Homem.
Quando procuramos a descrição da construção e do próprio Templo de Salomão, somos remetidos para escritos antigos, nomeadamente para a Bíblia, uma feliz descrição da construção, que diz: “quando se edificava a casa, faziam-na de pedras lavradas na pedreira, e assim, nem martelo, nem machado, nem instrumento de ferro algum foram ouvidos na casa enquanto ele era construída”.
Deve-se no entanto, bem entendido, fazer algumas reservas a respeito dessas descrições muito precisas que não podem apoiar-se senão em textos bíblicos cuja característica dominante não é a clareza nem a objectividade.

Salomão significa em hebraico, “homem pacífico”. O Templo de Salomão significa por isso, o “Templo da Paz”, da “Paz Profunda”, rumo à qual caminham todos os maçons que se abrigam da agitação do mundo exterior.
Ele terá sido construído em sete anos, em que por muitos este número tem sido considerado importante e significativo, nomeadamente em aspectos da natureza, no espectro solar, na música, os sete sábios da Grécia, sete maravilhas do mundo, sendo por isso, conservado como número característico mais elevado, por causa do seu duplo valor, cientifico e tradicional. Considera-se também que “sete” é o número daquele que chegou à plenitude da iniciação.

Deste modo cada um de nós tenta também, fazer uma “reconstituição” material do Templo de Salomão, pois na Maçonaria, esse Templo é tão apenas e acima de tudo, um símbolo, apesar de ser um símbolo de um alcance magnífico, designadamente “o Templo ideal jamais terminado”, o templo em que cada maçon é uma das sua pedras, preparada sem machado, nem martelo, no silêncio da meditação.
Nele sobe-se aos seus andares por escadas em caracol, por “espirais”, que indicam ao Iniciado que é nele mesmo, é voltando-se sobre si mesmo, que ele poderá atingir o ponto mais alto, que constitui o seu objectivo de evolução.
Alegoricamente, o Templo de Salomão é construído de pedra, madeira de cedro e ouro, simbolizando a pedra a estabilidade, a madeira a vitalidade e o ouro a espiritualidade. Assim, para o maçon , o Templo de Salomão não é considerado na sua realidade histórica, nem na sua acepção religiosa, mas apenas na sua significação esotérica profunda e bela.

NOTA HISTÓRICA:O Rei Salomão começou a construir o templo no quarto ano de seu reinado seguindo o plano arquitectónico transmitido por Davi, seu pai. O trabalho prosseguiu por sete anos. Em troca de trigo, cevada, azeite e vinho, Hiram ou Hirão, o rei de Tiro, forneceu madeira do Líbano e operários especializados em madeira e em pedra. Ao organizar o trabalho, Salomão convocou 30.000 homens de Israel, enviando-os ao Líbano em equipas de 10.000 a cada mês. Convocou 70.000 dentre os habitantes do país que não eram israelitas, para trabalharem como carregadores, e 80.000 como cortadores. Como responsáveis pelo serviço, Salomão nomeou 550 homens e, ao que parece, 3.300 como ajudantes.
O templo tinha uma planta muito similar à tenda ou tabernáculo que anteriormente servia de centro da adoração ao Deus de Israel. A diferença residia nas dimensões internas do Santo e do Santo dos Santos ou Santíssimo, sendo maiores do que as do tabernáculo. O Santo tinha 40 côvados (17,8 m) de comprimento, 20 côvados (8,9 m) de largura e, evidentemente, 30 côvados (13,4 m) de altura. O Santo dos Santos, ou Santíssimo, era um cubo de 20 côvados de lado.
Os materiais aplicados foram essencialmente a pedra e a madeira. Os pisos foram revestidos a madeira de junípero (ou de cipreste segundo algumas traduções da Bíblia) e as paredes interiores eram de cedro entalhado com gravuras de querubins, palmeiras e flores. As paredes e o tecto eram inteiramente revestidos de ouro.
Após a construção do magnífico templo, a Arca da Aliança foi depositada no Santo dos Santos, a sala mais reservada do edifício.
Foi pilhado várias vezes. Seria totalmente destruído por Nabucodonosor II da Babilónia, em 586 a.C., após dois anos de cerco a Jerusalém. Os seus tesouros foram levados para a Babilónia e tinha assim início o período que se convencionou chamar de Captividade Babilónica na história judaica.
Décadas mais tarde, em 516 a.C., após o regresso de mais de 40.000 judeus da Captividade Babilónica foi iniciada a construção no mesmo local do Segundo Templo, o qual foi destruído no ano 70 d.C., pelos romanos, no seguimento da Grande Revolta Judaica.
Alguns afirmam que o actual Muro das Lamentações era parte da estrutura do templo de Salomão.

Autor: Júlio Verne