quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Câmara de Reflexão

Câmara de Reflexão por Carmen-Lara
As iniciações remontam aos primórdios da humanidade, estando essencialmente associadas a ritos de passagem.
Geralmente nos objectivos das iniciações estão a aprendizagem de valores fundamentais para a vivência de um nível seguinte. Na Maçonaria, a Câmara de Reflexão surge como “peça” fundamental no processo de iniciação. Cuidadosamente dissimulada e fora do conhecimento dos profanos apresenta normalmente uma entrada discreta e de dimensões reduzidas, assemelhando-se no possível a uma gruta, túmulo, ou interior da terra. Sendo a chave da iniciação do neófito na Maçonaria tem uma importância excepcional para o futuro Maçon,  pois é nesse local que o neófito efectua uma reflexão sobre a sua vida profana e o que deverá ser após admissão na Ordem. 

Assim, espera-se do candidato, no interior da Câmara de Reflexões, uma séria meditação, através da qual seja levado a entender a efemeridade das coisas terrenas e a importância dos bens espirituais. Sendo recebido à entrada do edifício da ordem, a introdução do candidato na Câmara tem uma simbologia especial, correspondendo à descida ao interior da Terra, ao mundo da matéria densa. Ao fazer-se passar o profano pela Câmara de Reflexão, espera-se que o isolamento, a envolvente e os objectos lá colocados possam proporcionar novos ensinamentos. Outro simbolismo muitas vezes associado à Câmara é o do feto no ventre materno, sendo que a estadia no local corresponderia ao tempo de gestação que antecede o nascimento. O embrião desenvolve-se, nascendo para uma nova vida. Tudo isto precedido do aspecto fúnebre simbolizando a morte do neófito para a vida profana. O isolamento e as paredes negras representarão a transição das trevas para a luz que constituirá o culminar do processo de iniciação. Por isso a finalidade da Câmara não será o de provocar medo ao neófito, mas antes o estado de clareza e receptividade a nível espiritual absolutamente necessário ao entendimento dos ensinamentos esotéricos inerentes à Iniciação. Na presença da morte todos os interesses de natureza material perdem todo e qualquer valor ficando a esperança concentrada na possibilidade de um novo nascimento. Torna-se assim extremamente importante que o neófito permaneça na Câmara, preferencialmente sozinho, durante o tempo que lhe permita reflectir sobre tudo aquilo que lhe é possível observar no local.

Autor: Gualdim Paes

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Zeca Afonso - Canção de Embalar




Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti 
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis) 
Outra que eu souber na noite escura 
Sobre o teu sorriso de encantar 
Ouvirás cantando nas alturas 
Trovas e cantigas de embalar 
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis) 
Trovas e cantigas muito belas 
Afina a garganta meu cantor 
Quando a luz se apaga nas janelas 
Perde a estrela d'alva o seu fulgor 
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis) 
Perde a estrela d'alva pequenina 
Se outra não vier para a render 
Dorme que ainda à noite é uma menina 
Deixa-a vir também adormecer 
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis)


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Estrela D'Alva - 103.º Aniversário

“A região do Vale do Alva tem na sua história uma disputa entre três rios, o Mondego, o Alva e o Zêzere, todos nascidos na Serra da Estrela. Estes três rios envolveram-se um dia numa grande discussão sobre quem seria o mais valente e acertaram numa corrida que esclareceria a questão: quem chegasse primeiro ao mar seria o vencedor. 

O Mondego levantou-se cedo e começou a deslizar silenciosamente para não atrair as atenções. Passou pela Guarda e pelas regiões de Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim, pela Raiva, onde se fortaleceu junto dos ribeiros seus primos, chegando por fim a Coimbra. O Zêzere, que estava atento, saiu ao mesmo tempo que o seu irmão. Oculto, por entre os penhascos, foi direito a Manteigas, passou a Guarda e o Fundão, mas logo depois se desnorteou e, cansado, veio a perder-se nas águas do Tejo. O Alva passou a noite a contar as estrelas, perdido em divagações de sonhador e poeta. Quando acordou, era já muito tarde mas ainda a tempo de avistar os seus irmãos ao longe. Tempestuoso, rompeu montes e rochedos, atravessou penhascos e vales, mas quando pensava que tinha vencido deparou com o Mondego, no momento que este já adiantado chegava ao mar. O Alva ainda tentou expulsar o seu irmão do leito, debatendo-se com fúria e espumando de raiva, mas o Mondego engoliu-o com o seu ar altivo e irónico.” 

Esta lenda de Portugal encerra em si um tríptico simbolismo relacionado com a origem e fundação da Estrela D’Alva. 

Em primeiro lugar, a Loja nasceu em 1871 na cidade de Coimbra formada por um conjunto de maçons que viviam, tinham valores e princípios morais éticos, sonhavam com uma sociedade mais justa e fraterna, e segundo dados históricos com relevância na região do Vale do Alva com as suas funções profissionais, universitárias e de família, mantendo a sua actividade nesta cidade até 1912. 

Em segundo lugar, a região do Vale do Alva embora seja uma região serrana com as adversidades da natureza e de formação territorial, nunca impediu que as gentes que viviam, e vivem na região se deixassem abater por essas contrariedades, foram gentes que lutaram pelo progresso, pela evolução e com valores determinados em prol dos mais desfavorecidos, da justiça, da igualdade e com vasta intervenção social e de cidadania. 

Em terceiro lugar, existe a ligação ao nome Alva como uma homenagem às gentes da região, existe mesmo uma localidade na região como o nome: Estrela de Alva; por outro lado, serviu para a ligação do mundo terreno ao celeste, através da estrela mais próxima do planeta Terra, que se tem chamado popularmente de Estrela Vespertina, Estrela Matutina, Estrela do Pastor ou Estrela d'Alva. 

Mas, outros significados mais simbólicos têm este nome e esta lenda. Na lenda estão plasmados valores, princípios, símbolos que são interiorizados pelos Maçons, senão vejamos: a determinação de lutar, progredir, vencer, a honra, o caminho a percorrer. Tem o simbolismo dos elementos da natureza, da terra, água, ar, numa viagem feita com o objectivo de conhecer outras realidades, o chegar ao mar imenso e por conhecer, por que não, outros mundos, foi do mar que partiram os Descobrimentos.
Tem o conhecimento, a procura da geometria do espaço e a ligação à astronomia, a divagação com a ligação à filosofia, a poesia para as artes, o sonho na demanda do mundo melhor, pois como diz o poeta: o sonho comanda a vida.
Por fim, e não menos importante, a disputa por chegar mais longe, o desbravar o caminho, é feita por 3 irmãos que em igualdade, partem na demanda do conhecimento e de outros mundos.

Pelo saber de hoje, o nome “Estrela D’Alva” dado a uma Loja em Portugal remonta a ano de 1871, perfazendo 140 anos de existência. Por perda de elementos para garantir a transmissão iniciática, a actual Loja Estrela D’Alva é herdeira de 103 anos de trabalho, irradiação da Luz, mantendo-se activa e regular desde 1908 sem qualquer interrupção ou abatimento, mesmo nas dificuldades e agruras da clandestinidade. 

Nestes mais de 100 anos de trabalho em que o testemunho foi passando por gerações e que foram atravessados por múltiplos acontecimentos, como a Implantação da Republica, Estado Novo e a sua Ditadura, a privação da Liberdade e dos Direitos Humanos, a clandestinidade, uma guerra colonial, o alvorecer da Liberdade em Abril de 74, temos que prestar a nossa homenagem aos Maçons que nos antecederam, pela grande competência e extraordinária dedicação aos valores da Maçonaria e por manterem as colunas bem erguidas e irradiar com esplendor e brilho a Liberdade, a Justiça, a Verdade, a Honra e o Progresso.
Renovamos os agradecimentos pela Honra que nos deram com a vossa presença nas nossas comemorações e como o objectivo da Maçonaria é o da procura da Verdade nos seus mais variados aspectos e utiliza como linguagem, fundamentalmente, a linguagem simbólica, apelamos-vos, por isso, para que conjuntamente trabalhemos na construção do Templo para que seja possível atingir a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade Universal. 

Saúde e Fraternidade! 

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Gustavo, apresento-me

A data estava marcada com hora incerta para o momento final. 
No entanto, eram exactamente meio-dia, do dia 24 de Maio de 2002, quando me foi pedido para entrar numa sala e aguardar.
Era a primeira vez, desconhecia por completo aquele ambiente, era como se estivesse de olhos vendados. O lugar era frio, sinistro e deveras impressionante, ambiente propicio a meditação e pensamento. 
Não estava sozinho, mas sentia-me só, estou acompanhado com mais duas pessoas que não conheço mas que esperam pelo mesmo acontecimento. Envolvidos todos na mística que nos rodeia, não conseguíamos disfarçar o nervosismo que impera neste espaço.
Sozinho na minha espera, a ansiedade apoderou-se de mim, pensei por longos momentos, que tudo iria mudar na minha vida e o quanto prestes estava para acontecer. Estou a breves momentos, de triplicar a responsabilidade que faz de mim um homem de bons costumes e com o dever de transmitir aos outros valores sociais tão importantes como a justiça, respeito, honestidade e rectidão. 
Ruídos estranhos e barulhos constantes rompem pelas brechas da porta que me separa da acção, .…. são ecos longínquos que vão despertando os meus medos e receios. 
Algum tempo depois, entra alguém com um formulário de poucas e concretas perguntas para preencher. Sentei-me na mesa colocada de frente do janelão espelhado, aproximando-me do candeeiro com lâmpadas em forma de vela para que a escrita fosse perfeita. Á medida que preenchia a minha mente refugiava-se em Deus e na minha Família. Naquele momento nada era importante, dinheiro, bens materiais e tempo, eram coisas fúteis, a situação assim o proporcionava, era só eu e os meus pensamentos de reflexão para com o mundo, na esperança que tudo corresse bem. 

Tudo o que queria saber, era o que se passava lá fora ou lá dentro, perto do acontecimento, pensava em tudo e em todos, dava a volta ao meu mundo num curto espaço de tempo, como se estivesse a definir e redefinir a minha pessoa. Estava a acusar a responsabilidade de nove meses de preparação para um novo amanhã. 
Também pensava em todas as pessoas do mundo, pessoas com dificuldades, pessoas que nunca lhes foi dado uma oportunidade para sorrir como eu espero sorrir, pessoas que levaram uma vida recta e nunca puderam saborear uma situação fraternal. Enfim, pessoas de outro contexto, com vidas complicadas. 
Estava na eminência de alterar a minha vida, iriam chamar-me a qualquer instante e não sei se estou preparado para agarrar o que me espera ou para o que esperam de mim. Mas naquele momento estava decidido a consolidar tudo o que de bom me ensinaram para ser capaz de o difundir junto dos que amo. O relógio era o objecto, entre os outros da sala, o mais olhado, as horas pareciam intermináveis, tornando-me pequenino por não poder de controlar o momento. São nestas alturas que damos valor ao que temos e ao que queremos manter a todo custo, pois nada é garantido, tudo é efémero. Percebemos que a vida é uma passagem e todas as decisões tomadas definem-te o homem que és. Encontras-te num momento de auto-critica, deveras pesado para quem vai assumir um novo cargo na sociedade. 

Eis que sou chamado, cego pela escuridão e sem noção do espaço pelo qual caminho, aproximo-me daquilo que hoje sei ser, o lugar do acontecimento, trémulo e sem controlo no discurso, fui respondendo e validando as informações que apresentei anteriormente, e tentando discretamente saber o que se estava a passar de forma a confortar-me. 
Sentia um ambiente carregado de pressão sobre mim, como se me estivessem a avaliar na prova da minha vida, e continuavam a não me dar novidades, só queria era que tudo terminasse em bem.
De volta á câmara ou á sala de espera da maternidade, já não tenho posição de estar, os ruídos continuam do outro lado da porta,, e agora sinto que estou perto de o ver, passado algum tempo, a hora da verdade chegou. 

É meia-noite, chamaram-me e mostraram-me a Luz da minha vida.  
Eu tornara-me Pai de um menino que acabou de nascer com 3,4kg de seu nome Gustavo.
Curiosamente, passado 3 anos, passei pela mesma prova de fogo, desta vez de um modo diferente. Fui convidado a nascer de novo, aprendendo a trabalhar espiritualmente e a comungar de uma elite, onde todos os valores que tento transmitir são as colunas do meu carácter, Liberdade, Igualdade e Fraternidade. 
Hoje todos os meus irmãos me reconhecem como …. Gustavo.

Autor: Gustavo

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sucedeu

O que a seguir vos relato é inteiramente verdade. Só não importa onde ocorreu, porque a Maçonaria é Universal. Fica o exemplo. 

Reinava profundo silêncio no Templo; era noite de Iniciação e tinha-se acabado de dar a Luz a um profano. Os Irmãos tomavam assento nas suas colunas quando uma voz forte se faz ouvir e um Irmão, de pé, pede a palavra ao VM fora da altura convencionada para tal. Todavia, face ao tom da voz e ao porte assumido e pensando que se tratava de um caso fortuito de indisposição, aliás não incomum em sessões prolongadas, o VM concede-lha. 

“V M”, disse o Irmão se tinha colocado de pé, “permite-me cobrir o Templo, uma vez que não posso resistir por mais tempo à presença deste profano. Separa-nos um facto da vida que, quando ocorreu, prometi vingá-lo, se possível com a morte; mas tive a sorte de me serenar a tempo e a sua ausência também me o impediu. Mas, no momento em que o vejo chegar a este sagrado recinto, não posso resistir ao veemente desejo de me afastar imediatamente da sua presença”. 

“Senhor”, interrompeu o recém-iniciado, dirigindo-se ao VM. “Sou eu quem deve ir-se embora e rogo-lhe que me permita sair. 
O VM, com a serenidade própria que nunca deve abandonar o bom Maçom, perguntou ao seu Irmão de Oficina se era tão grave e tão profundo o assunto que o levava a abandonar o Templo, ao que este respondeu: “Serei breve, VM. Há alguns anos, um filho meu, gravemente doente, foi assistido por um médico mas morreu, na sequência de uma prescrição errada de medicamentos que tomou. Esse médico é o homem que hoje se inicia e, para não perturbar a cerimónia, prefiro abandonar o Templo. 

O silêncio de morte e a emoção contida que tinha invadido os presentes foram interrompidos pelo recém-iniciado que, com voz trémula e dorida, explicou: “Senhor, durante os meus anos de estudo tive um companheiro de aula, mais do que um amigo, quase um irmão; saíamos quase sempre juntos e fazíamos anos no mesmo dia. Já eu tinha tirado o curso quando soube que tinha ficado doente. Acudi imediatamente para lhe dar consolo e para o atender. Coloquei todo o meu esforço, todo o meu carinho e todas as minhas energias a tempo inteiro para o aliviar das suas dores e para acelerar a sua cura. Desgraçadamente, tudo saía ao contrário. A doença tornava-se mais grave a cada dia e, possivelmente pelo empenho em restabelecê-lo, cometi um erro. O meu querido amigo, o meu irmão de alma, morreu. Era nobre e generoso como poucos, inteligente e bom. Eu, senhor, angustiado pela dor, com a alma e com o coração afligidos até ao mais íntimo pela perda irreparável deste tão querido irmão, perdi a motivação para tudo o mais e passei a viver fechado em casa. Destroçado e decadente, acabei por ficar doente e sem poder dedicar-me a qualquer tarefa profissional. Vendo que a minha vida se tornava impossível ao conviver com os amigos comuns e que não podia dedicar-me à minha profissão, fui para o estrangeiro. Ali vivi alguns anos, que, todavia, não tiveram a capacidade de curar esta profunda ferida que deixou na minha existência a morte daquele companheiro, o filho deste digno senhor, a quem publicamente peço que me perdoe. A minha culpa foi inocente. O seu pai quis a minha vida. Pode dispor dela quando quiser. Compreendo a sua dor, porque a minha também foi horrível. 

O Irmão da Oficina, surpreendido, exclamou: “VM, as minhas forças como homem e como pai abandonam-me. Só me resta, como Maçom, suplicar-vos que me permitis ir à coluna para perdoar ao recém-iniciado.” O VM assim o permitiu. 

Uma vez entre colunas, ao lado do iniciado, disse-lhe: “Nunca pensei olhar a tua cara frente a frente, mas tocaste o íntimo do meu coração, que te perdoa neste Templo sagrado. Compreendo que sofreste. São coisas do destino. Irremediáveis. Mas eu, que tanto chorei pelo meu filho idolatrado, neste momento solene e neste local sagrado de abraço como se tu também o fosses, e abraço-te também como meu Irmão de Loja.” 

Fez-se Maçonaria.

Autor: Álvaro

sábado, 12 de novembro de 2011

A Mulher de Cigarro na Mão













O pensamento está petrificado,
Apenas um cigarro na mão
Um último desejo, de uma condenada,
Em que a morte circula nos vasos sanguíneos.
Esqueceu a solidão, a mágoa encoberta,
Esqueceu o riso e as lágrimas,
Esqueceu o sol e a lua,
Esqueceu os cafezais e as montanhas,
Esqueceu a infância, a família, os vizinhos,
Esqueceu os guerrilheiros com quem partilhou o sonho e o pão,
Esqueceu os filhos assassinados,
Esqueceu o marido assassinado,
Esqueceu que esqueceu.

Apenas um cigarro como um último tesouro,
Num dia longo sem esperança de noite.


Autor: Jónatas


Massacre de Santa Cruz foi há 20 anos - a Justiça continua por fazer!

A 12 de novembro de 1991 mais de 2.000 pessoas reuniram-se numa marcha até ao cemitério de Santa Cruz, em Díli, para prestarem homenagem ao jovem Sebastião Gomes, morto em Outubro desse ano por elementos ligados às forças indonésias.
No cemitério, militares indonésias abriram fogo sobre a multidão.
Segundo números do Comité 12 de Novembro, 2.261 pessoas participaram na manifestação, 74 foram identificadas como tendo morrido no local e 127 morreram nos dias seguintes no hospital militar ou em resultado da perseguição das forças ocupantes.
201 pessoas foram massacradas.
A maior parte dos corpos continua em parte incerta!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Gualdim Paes – O Templário

D. Gualdim Paes nasceu em Amares em 1118, coincidindo o seu ano de nascimento com o da Ordem do Templo em Jerusalém. Filho de D. Paio Ramires e de segundo casamento com D. Gontrude Soares, terá passado boa parte da sua infância e juventude no mosteiro de Santa Cruz em Coimbra.

Por doação de D. Teresa, viúva do Conde Henrique e tutora do seu filho Afonso Henriques, fica a Ordem do Templo sediada desde 19 de Março de 1128 no castelo de Soure e respectivas dependências, dois meses apenas após a comparência do fundador da Ordem do Templo perante o Concílio de Troyes, cujo papel acabaria por ser decisivo para o seu reconhecimento e desenvolvimento. Rapidamente, outras doações vêm juntar-se a esta e não sendo necessariamente feitas por senhores poderosos, são no entanto em grande número. Assim, entre 1128 e 1130, 19 bens fundiários, incluindo vários domínios rurais, são atribuídos integral ou parcialmente ao Templo.
Cedo D. Gualdim terá sido chamado ao serviço do futuro Rei D. Afonso Henriques, combatendo a seu lado contra os mouros e sendo armado cavaleiro secular pelo soberano em 1139 no campo da batalha de Ourique. Terá sido também por esta altura, entre 1139 e 1148 que, terá ocorrido a sua admissão na Ordem do Templo, muito provavelmente também por indicação e apadrinhamento de D. Afonso Henriques. Terá ainda combatido ao lado de valorosos cavaleiros como Mem Ramires e Martim Moniz, evidenciando-se durante as tomadas de Santarém, em 1147, e de Lisboa, em 1149. Por essa altura terá sido elevado a Comendador (de Braga ou Amarante).
Da tradição popular consta que, quando D. Afonso Henriques se preparava para travar a batalha de Santarém, São Bernardo terá contado a Gualdim Paes uma revelação tida em sonhos e segundo a qual o rei sairia vitorioso do campo de batalha. Na sequência dessa revelação, o Rei terá prometido oferecer a S. Bernardo de Claraval terras e subsídios para a construção de uma grandiosa abadia.
Partindo para a Palestina, D. Gualdim aí terá permanecido durante cerca de cinco anos como Cavaleiro da Ordem do Templo, participando no cerco à cidade de Gaza em 1153, numa altura em que se estaria no final do Grão mestrado de Bernard de Tramelay e início do de André de Montbard, estando ainda presente na conquista de Áscalon em Agosto do mesmo ano e em várias incursões realizadas na Síria e Antioquia. Durante a sua permanência nesses territórios, terá tido certamente oportunidade de visitar os lugares sagrados de várias religiões. Seria por essa altura Mestre do Templo em Portugal, D. Hugo Martins.
Em Junho de 1145, D. Sancha, filha de D. Teresa, e o seu marido, doam ao Templo o Castelo de Longroiva, bem como as suas inúmeras dependências na região da metrópole de Braga. Nessa cidade e nesse mesmo ano, o arcebispo concede igualmente à Ordem uma casa, um hospital para os peregrinos e metade dos rendimentos eclesiásticos da cidade.

Ao regressar a Portugal, Gualdim Paes terá participado no cerco de Alcácer do Sal ao lado do seu Mestre D. Pedro Arnaldo, um dos fundadores da Ordem (sendo lícito supor que terá sido este a recomendar a ida de D. Gualdim para a Terra Santa). Sucede-lhe no mestrado, tornando-se assim o quarto Mestre em território português (seria por essa altura Grão-Mestre Bertrand de Blanchefort). Será importante referir que, apesar da bula de Alexandre III “Manifestis probatum” reconhecendo a independência do Reino e D. Afonso Henriques como seu Rei ter sido apenas emitida em 13 de Abril de 1179, já desde 1139 era considerada a existência de Portugal como Reino.
Inicia-se então um período de extraordinária expansão da Ordem, recebendo o Templo do Rei um importante domínio agrícola na confluência do Nabão com o Zêzere, onde é iniciada em 1160 a construção do castelo e do convento de Tomar, que se tornará a sede do Templo em Portugal, e mais tarde, da sua alegada sucessora, a Ordem de Cristo. Tomar recebe foral de vila em 1162. São ainda fundados os castelos de Almourol, Idanha, Ceras, Monsanto e o de Pombal. O foral de Pombal terá sido concedido em 1174. Uma década mais tarde e no âmbito de uma vasta doação de terras a sul do Tejo, o Rei insistirá em que os recursos da Ordem sejam utilizados apenas no reino para prosseguir com a reconquista.

Em 1190 cercado em Tomar pelas forças comandadas pelo califa Abu al-Mansur, D. Gualdim Paes consegue heroicamente defender o castelo contra um efectivo numericamente muito superior, detendo assim a invasão do norte do Reino.
D. Gualdim terá ainda vivido quase 10 anos após a morte do seu amigo, protector e confrade, D. Afonso Henriques, que pouco antes de partir doou à Ordem do Templo o terço de tudo o que por esta fosse conquistado e povoado a sul do Tejo.
D. Gualdim Paes faleceu em Tomar a 13 de Outubro de 1195, tendo sido sepultado, à semelhança dos outros Mestres portugueses do Templo, na Igreja de Santa Maria do Olival. No entanto, os seus restos mortais já não se encontrarão nesse local na sequência da profanação das sepulturas levada a cabo pelo inquisidor padre António de Lisboa, nomeado por D. João III o Pio, para a tarefa de reformar a Ordem de Cristo. Consta que a caça ao tesouro não terá terminado com Filipe IV em França. As sepulturas dos mestres foram destruídas, documentos foram queimados e a história adaptada à vontade reinante.

D. Lopo Fernandes sucede a D. Gualdim como Mestre da Ordem do Templo em Portugal. Através da bula “Regnans in coelis” de 12 de Agosto de 1308, o Papa Clemente V dá conhecimento aos monarcas cristãos do processo movido contra os Templários e através da bula “Callidi serpentis vigil” de Dezembro de 1310 decreta a prisão dos mesmos, dando início ao famoso e longo processo dos templários, ainda hoje considerado como um dos períodos mais negros da história medieval.
A influência de D. Gualdim Paes na acção dos templários nos confins da Península Ibérica, poderá ter estado ligado a objectivos menos conhecidos e intimamente ligados à génese do reino nascido naquele ponto mais ocidental do continente, onde o mundo conhecido terminava, encruzilhada de culturas, credos e raças, terra onde sob as estrelas Viriato erguera as suas preces a Endovélico. Afinal, Gualdim Paes terá sido armado cavaleiro em pleno campo de batalha por D. Afonso Henriques, o primeiro Rei de Portugal e aquele que, de acordo com a tradição, se diz ter sido o primeiro Mestre dos Templários portugueses.

O que me levou a escolher Gualdim Paes como nome simbólico foi essencialmente o exemplo de coragem, perseverança e lealdade. Foi a capacidade de permanecer fiel aos seus ideais, compromissos, amigos e companheiros de armas, a firme vontade com que enfrentou todas as batalhas e a lucidez e determinação com que geriu a autoridade que lhe foi conferida. Todas estas características pessoais, bem como todo o conjunto de eventos que marcaram a sua vida, desde muito cedo conquistaram a minha mais profunda admiração.

Autor: Gauldim Paes

terça-feira, 21 de junho de 2011

O Solstício está em nós

Por instantes, duas vezes em cada doze meses, o Sol alcança a sua maior declinação elíptica – e parece suspender-se em luz pura. Nesses dois dias mais longos do ano se marca o início dos ciclos maiores da Mãe-Natureza, celebrados desde que o Homem pôde conhecer e medir o seu lugar no Universo.

Desde a mais remota Antiguidade assinalamos, sob a forma de alegorias míticas e festas telúricas, a abertura gloriosa das Portas Solsticiais. E a própria etimologia latina do SOLSTITIUM nos remete para esse breve momento em que o Astro se sustém, grande e jorrando luz, franqueando os seus portais a quem ousa olhá-lo de frente.
Uma das faces do dualismo primordial do preto e do branco, expresso também nas duas faces do deus Janus, o Grande Arquitecto bifásico, está perfeitamente figurada na festa dos Fogos de S. João de Verão, o Solstício de Câncer, personificado no Baptista, e que assinala a travessia da Porta dos Homens, a abundância e a plenitude do que é perfeito.
O mesmo Sol que ilumina o Ser humano, neste momento de transição das trevas para a claridade, é o mesmo que faz germinar na terra os frutos. Por isso, nesta cerimónia, celebramos também o trigo, o vinho e o azeite – cada um na sua carga simbólica própria e todos como representação da capacidade geradora, desse início em que da semente brotam os primeiros rebentos que hão-de crescer, frutificar e multiplicar-se.
Todos os cultos iniciáticos comemoram a alegoria solsticial, desde a ancestralidade da consciência humana. Fizeram-no os antigos egípcios com Anúbis e os persas com os seus ritos estrelares. Fizeram-no os sacerdotes do Hinduísmo, com os pitri (os espíritos dos que partiram) e o deva yana (o caminho dos deuses). Fizeram-no os cultores dos ritos de Mitra e os gregos, nas suas celebrações de Hermes. Fizeram-no as comunidades druídicas das terras e ilhas do Mar do Norte. Fizeram-no os romanos na deusa Vesta, patrona do Fogo, condutora das almas na viagem do terreno para o celeste, isto é, do efémero para o perene. E fizeram-no os irmãos da Fraternidade dos Mathematikoi fundada por Pitágoras, e depois deles todas as escolas filosóficas e iniciáticas cujo labor se centra, como escreveu René Guénon, naquele momento em que “o passado já não é e o futuro ainda não é”.

Os construtores medievais, os maçons das Corporações de ofício, os Mestres do Craft, adoptaram as festas solsticiais, coincidentes com as celebrações de João Baptista (nos Fogos de Verão) e João Evangelista (nos Fogos de Inverno), e erigiram estes em patronos simbólicos das nossas Lojas de São João. Ainda hoje nós aqui o fazemos também.
No Ritual, quando o Venerável Mestre pergunta “De onde vens?”, a resposta que damos é “De uma Loja de São João”. Mas a qual dos dois Joões nos referimos? A ambos, na realidade, pois ambos constituem alegorias que remetem para a sublimação da construção. E há Irmãos que invocam ainda um terceiro João, S. João de Jerusalém, o Saint John Almoner, o João Esmoler e hospitaleiro tão ligado à reedificação dos Templos e ao socorro dos aflitos. Desse falaremos talvez noutra ocasião.
Algo distingue, contudo, o João Evangelista dos Fogos de Inverno do João Baptista dos Fogos de Verão. O primeiro é o que derrama a luz recebida, é o Verbo, aquele que espalha a ideia e acompanha os trabalhos de construção do Templo interior. O segundo é o João da Iniciação e da revelação, o neófito no preciso instante em que a venda lhe é retirada e ele pode contemplar o Sol iluminador. Também o Ritual o afirma, nesta passagem: “O Baptista, em pleno Fogo do Verão, clama pela expansão do Sol Vitorioso”.
A própria alegoria do baptismo explica, noutra figuração, o momento iniciático da luz. Aquele “que purifica pela água” é também aquele que abre os portais para “uma nova vida”, aqui reflectida na entrada num ciclo de “mais luz”. No baptismo encontramos ainda o princípio da transmissão espiritual através da Tradição. Isto é: ninguém se baptiza a si próprio, assim como ninguém é iniciado fora de uma cadeia tradicional, ininterrupta, que lhe dá valor e sentido – o que nos remete para os fundamentos iniciáticos da nossa Augusta Ordem e para a beleza da transmissão iniciática de Mestre a Discípulo.
Tal como estas celebrações solsticiais de Verão anunciam o dia claro e a luz brilhante, assim João Baptista é aquele que prepara e anuncia a era do Ser maior e o acompanha, pelo baptismo renovador, na travessia dos portais do entendimento. No Bhagavad Gitâ isto vem exposto com estas palavras: “Aqueles iluminados pela Luz do verdadeiro conhecimento recebido do Sol da Sabedoria, conhecem o Espírito Supremo e com Ele se unem; esses passam pela porta e abandonam as trevas”.
No Ritual, quando dizemos que “vimos de uma Loja de S. João” e o Venerável Mestre nos pergunta “Onde se encontra essa Loja?”, a nossa resposta é: “Em qualquer lugar em que o homem tome consciência de si próprio”.

Pois em cada um de nós nasce, com a iniciação, um solstício. O solstício está em nós.

Autor: A. Correia da Serra, n.s.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Saúde Pública

A Saúde Pública é a ciência e arte de proteger e promover a saúde, prevenir a doença e a incapacidade (com o objectivo de prolongar e melhorar a vida) através dos esforços organizados e escolhas informadas da sociedade, organizações públicas e privadas, comunidades e indivíduos.

O conceito de Saúde Pública tem evoluído lentamente. De um campo de actuação predominantemente preocupado com as medidas de prevenção das doenças transmissíveis consideradas necessárias para proteger as populações, assistiu-se ultimamente a uma incorporação crescente de práticas de administração e gestão na prevenção das doenças e na prestação de serviços públicos de saúde. Salienta-se, no entanto, a posição desvantajosa em que sempre se encontrou e as limitações inerentes a uma infra-estrutura de suporte desactualizada, subfinanciada e com escassez de recursos humanos e técnicos.
No entanto, e à medida que avançámos através dos primeiros anos do séc. XXI, tornou-se cada vez mais evidente a contribuição da Saúde Pública na escola, no local de trabalho, nas cidades e nos cuidados de saúde. Há agora por parte dos decisores políticos a percepção de que a promoção e a protecção da saúde das populações, assim como a alteração dos estilos de vida e comportamentos requerem bem mais do que promessas.
Neste contexto, a melhoria da saúde pública requer um esforço multidisciplinar, exigindo a todos os sectores da sociedade a sua contribuição. Além disso, os dividendos decorrentes de uma melhor saúde também serão sentidos por todos os sectores da sociedade uma vez traduzidos em custos sociais e financeiros. Salienta-se, assim, a importância de uma boa saúde comunitária como um recurso económico.
As conquistas da Saúde Pública no Século XX foram relevantes e podemos citar, entre outras: o reconhecimento do tabaco como perigo para a saúde, o controlo das doenças transmissíveis nomeadamente através da vacinação, a redução drástica da mortalidade materna, infantil e perinatal e o planeamento familiar.

Por outro lado em grande parte do Século XX, os sistemas de saúde foram construídos em torno de hospitais e especialistas que fazendo prevalecer a sua tecnologia e especialização, ganharam um papel central na maioria dos sistemas de saúde em todo o mundo. Hoje em dia, o ênfase desproporcional nos hospitais e na especialização e sub-especialização tornou-se fonte de ineficácia e desigualdade, que já provou ser extraordinariamente resistente à mudança.
Novos desafios e novas necessidades estão a ser equacionados: na demografia (redução progressiva da natalidade e o envelhecimento da população), na transição epidemiológica dos padrões de saúde-doença (aumento da obesidade, diabetes, doenças oncológicas e doenças mentais), nas doenças transmissíveis (tuberculose multiresistente, HIV/SIDA, microrganismos multiresistentes, infecção associada aos cuidados de saúde e gripe das aves), na segurança rodoviária e no planeamento das nossas cidades. Estas transformações epidemiológicas, demográficas e sociais, alimentadas pela globalização, urbanização e populações envelhecidas, colocam desafios de uma magnitude que não estava prevista há três décadas atrás.
Estes novos desafios ultrapassam o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o Sistema de Segurança Social mas impõem-lhe adaptações rápidas e soluções adequadas e eficientes baseadas no reforço da sua organização e infra-estrutura.

Daqui se infere da necessidade de uma aposta clara nos cuidados de saúde primários e na medicina preventiva que leve em conta a história natural das doenças e de um planeamento em saúde baseado na evidência científica e na governação clínica. Isto porque os cuidados de saúde primários têm mais ou menos a mesma probabilidade de identificar as doenças graves mais frequentes; têm o mesmo nível de adesão às normas clínicas mais recentes e que são adoptadas pelos especialistas; prescrevem poucas intervenções invasivas, as hospitalizações da sua iniciativa são menos frequentes e mais curtas e as intervenções têm uma maior orientação para a prevenção. Tudo isto resulta em cuidados de saúde com custos totais mais baixos, com impactos na saúde pelo menos idênticos mas com maior satisfação dos doentes.
Assim, esta reforma da Saúde Pública e dos cuidados de saúde primários em particular, deverá ser efectuada com base num reforço das competências e responsabilização dos médicos de família, dos médicos de saúde pública e dos profissionais de enfermagem num quadro de sustentabilidade do SNS e orientada para a obtenção de ganhos em saúde efectivos para a toda população com equidade e eficiência.

Autor: Mário Pereira

terça-feira, 7 de junho de 2011

Violência Social

Maçons preocupados com a escalada de violência
Maçons de todas as tendências e obediências têm vindo a expressar, nas suas Lojas, uma crescente preocupação face à escalada de violência na sociedade portuguesa.
Tiroteios em centros comerciais, confrontos entre grupos étnicos, agressões entre 'gangs' rivais, assaltos à mão armada a estabelecimentos e a casas particulares, violência agravada e crescente sobre idosos e crianças, e até entre crianças, violência doméstica, violência no discurso privado e no discurso público, violência nas ruas e nos locais de trabalho e de lazer, banalização do confronto físico, do uso de armas e mesmo do homicídio – são algumas expressões preocupantes da violência que, nos últimos meses, tem vindo a aumentar exponencialmente no nosso País, de forma alarmante.
A acção dos legisladores e dos poderes públicos tem-se centrado nos meios repressivos, através do reforço da intervenção policial e dos instrumentos de contenção dos actos violentos.
É compreensível que assim se proceda. Contudo, num quadro generalizado de crise económica e de valores, a acção de simples controlo da violência 'a posteriori' não poderá, por si só, conduzir a um clima de apaziguamento, tão necessário para que o País e os portugueses possam entregar-se à tarefa da recuperação do seu bem-estar, da sua dignidade e do seu direito à felicidade.
Um esforço de consciencialização para o grave problema da violência deve também ser responsabilidade de educadores, jornalistas, juristas, legisladores, políticos e, de um modo geral, de todos os agentes sociais cuja palavra possa ser ouvida num momento de perturbação e crise.

Os maçons portugueses não podem, no campo de trabalho social e espiritual que é o seu, alhear-se deste problema ou enjeitar responsabilidades. É nesse sentido que o Grémio Alexandria, consciente de que reflecte as preocupações dos maçons portugueses, exorta a um reforço dos valores da solidariedade e da fraternidade e faz um apelo para que todos aqueles que têm voz a usem na prevenção da violência social e na defesa dos princípios humanitários que inspiram os homens de bem e constituem o fundamento da própria Ordem Maçónica.

Autor: Com a devida vénia do Grémio Alexandria
O Grémio Alexandria é uma associação informal de maçons dedicada à reflexão sobre a vida em sociedade. Não reflecte a posição oficial de qualquer Loja ou Jurisdição maçónica, apenas se reclamando dos valores e princípios da Maçonaria Universal. (gremioalexandria@gmail.com)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Globalização

Como não sou especialista no assunto, neste e em muitos outros..., sendo apenas um mero observador dos fenómenos sociais logo devo começar por definir o que se entende ou entendem por Globalização.

O sociólogo de origem polaca Zygmunt Bauman define-a como a desvalorização da ordem enquanto tal – defende que ela seja vista como subversão dos territórios por obra do espaço mercantil.
Para Anthony Giddens a globalização significa a intensificação das relações sociais à escala mundial de tal maneira que faz depender aquilo que sucede a nível local de acontecimentos que se verificam a grande distância e vice-versa.
Martin Khor afirmou que a globalização é simplesmente uma versão actual do colonialismo. Nesta acepção a globalização não é “natural”, mas representa antes um projecto preciso para tornar governos e indivíduos subalternos às forças do mercado.
Será incorrecto o que este intelectual malaio diz?
Já repararam na crescente intromissão de instâncias multinacionais com normas, acordos e instituições no processo de formação das políticas públicas nacionais em âmbitos como o comércio a agricultura e o desenvolvimento?
Já repararam que na passagem de competências do estado-nação para instâncias supranacionais tem o perigo de corresponder á imposição de uma agenda neoliberal?
Os críticos do sistema neoliberal afirmam que este sistema só beneficia as grandes potências económicas e as empresas multinacionais em prejuízo dos países pobres ou em desenvolvimento trazendo-lhes desemprego, baixos salários, aumento das diferenças sociais e dependência dos capitais internacionais.
Os defensores do sistema crêem que o sistema proporciona os desenvolvimentos económico e social de um país deixando a economia mais competitiva, proporciona o desenvolvimento tecnológico e com a livre concorrência faz os preços caírem e a inflação também.
Mas há mais, Thomas Friedman do New York Times, define-a como “ a inexorável integração de mercados, estados-nações e tecnologias a um nível nunca antes atingido, com a consequência de permitir aos indivíduos, às empresas e aos estados-nações estender a própria acção por todo o mundo mais rapidamente, mais profundamente e com menor custo de ser alguma vez possível anteriormente”.
Um senhor, Tom Peters definiu-a como “ a força que com maior potência contribui para o progresso á face da terra”.
Bonito, não é? Mas misturem isto tudo com a Organização Mundial do Comércio, com o Fundo Monetário Internacional (FMI) onde o Tesouro dos Estados Unidos é o maior accionista e o único, salvo erro, com direito a veto e com o Banco Mundial e temos algo muito interessante para pensarmos.

É um facto que a globalização não é só económica, ela é transversal pois apanha todas as necessidades da sociedade, mas por defeito meu, só a vejo tratada em grande parte sobre o angulo económico. Como disse alguém, não me recordo quem, não há mais vida para além da economia?
Será que o Ser Humano não necessita de mais nada? Na minha opinião precisa e muito, mas eu, sou só um observador. Eu só observo, que apesar de estarmos no século XXI, com tanto conhecimento e tanto desenvolvimento, temos tantos povos que não têm os mínimos para poderem sobreviver ao passo que outros esbanjam os seus recursos em guerras e guerrinhas, tantas vezes fúteis, senão sempre fúteis.

Onde está a Fraternidade? Procura-se...

Autor: Jorge Amado

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sociedade e Cidadania

Após pensar sobre este tema - Sociedade e Cidadania, e após alguma ponderação resolvi tentar definir de uma forma simples, e porque não primária, do que é a Sociedade e o que é Cidadania, pelo menos para mim.

Vejamos então: O ser humano é por natureza gregário e esta tendência leva-o a se juntar com o seu semelhante o que tem como consequência a perca de algumas das suas características individuais, e como não podia deixar de ser também algumas das suas liberdades.
Este “ajuntamento” não é universal, antes pelo contrário, iniciou-se primeiro por uma família, depois por outras até chegarem à fase da tribo, a qual detinha e defendia o seu território, com os seus hábitos e costumes bem definidos. Esta seria a primitiva sociedade, onde cada um teria de se integrar nas necessidades de sobrevivência do seu semelhante/aglomerado.
Se multiplicarmos a situação anterior por “n”, e se pensarmos no desenvolvimento intelectual, no acumular da informação que hoje o ser humano possui é fácil fazer a extrapolação para os dias de hoje: A sociedade em que vivemos.
Foi rápido... como se isto fosse assim tão simples. Não esqueçamos o primeiro parágrafo: "a necessidade gregária fê-lo perder algumas características individuais e algumas das suas liberdades" e aqui começam os problemas de conciliação do indivíduo com a Sociedade, seja ela primitiva ou actual.

Esta tentativa de conciliação é para mim a Cidadania. No desenvolvimento dessa conciliação criaram-se um conjunto de instituições com o objectivo de controlar e administrar a Sociedade/Nação – Estado.
Hoje, numa sociedade democrática, a direcção destas instituições são enquadradas pelos partidos políticos, mas desculpem-me, já não sei se isto corresponde á realidade ou antes estão enquadradas por "facções" como diria Jean-Jacques Rousseau num dos seus libelos contra a representação política – os partidos constituíam corpos estranhos ao Estado, e a sua formação um sintoma da ruína da comunidade: ao favorecer os interesses particulares em detrimento da vontade geral, as "facções" e todo o tipo de associações e todo o tipo de associações parciais colocavam em causa o carácter indissolúvel do contrato social – conceito perigoso que deu origem a muita coisa má. O problema de hoje, na minha modesta opinião, é que que os termos "partido" e "facções" tornaram-se semanticamente equivalentes quando se confundem na realidade, ou seja quando o percurso inevitável dos "partidos" é o degenerarem em "facções". Estarei eu enganado ou estou a ver mal o problema?

Se pensarmos na “Mirídia” de situações que encontramos na Sociedade actual... dá para pensar.
Os modelos actuais de governação, quanto a mim estão ultrapassados, têm que ser repensados. Tudo gira á volta da economia e não pode ser, temos que a moralizar. Reparem no que está a acontecer com a revolta das populações no mundo árabe. Reparem que as classes políticas só advertem as reivindicações dos pobres mas não as dos ricos. O modo da produção de riqueza e a sua integração na sociedade tem que ser repensado. Esta não não pode ser resolvida com uma mera justiça distributiva. É imoral....

Penso que a verdadeira "Politique", como ciência do governo do Estado, tarda a aparecer.

Autor: Jorge Amado

terça-feira, 17 de maio de 2011

Minha Luz

Atravessei um deserto de pó e areia, não foi o dia que iluminou o meu caminho, mas antes a sombra da noite, as estrelas no firmamento nocturno foi o único brilho que os meus olhos viram, a Lua cheia iluminada por uma luz que não vinha dela atenuava a dificuldade da caminhada, e quando ela se escondia na noite e desaparecia do meu olhar eu continuava a andar pois de tantas vezes o ter percorrido já o sabia de cor.

Aprendi a contar as horas com os grãos de areia e o tempo tornou-se no meu melhor amigo de tantas vezes conversar com ele. No silêncio aprendi que existem mil caminhos para o coração, neste e em todos os mundos sob todas as formas.
A noite, a sombra, a luz das estrelas, a luz reflectida na Lua vinha de algum lugar, senti-la era tudo o que eu queria, pedi aos deuses a forma e a oportunidade, mas Eles pareciam não me ouvir….
De tanto ter olhado a lua tornei-me nela, de tanto ter dormido sob as estrelas conheci a alma das coisa, de tanto ter vivido na noite tornei-me sombra, de tantas horas de mãos dadas como tempo, tornei-me nele e ele tornou-se meu, de tantas vezes ter ouvido o deserto e ter caminhado nele tornei-me em areia e pó.

Mas afinal os deuses ouviam-me, e aquele lugar de sombra estava a abrir um lugar de Luz à minha frente, pois foi na sombra e no silêncio que aprendi a escutar a alma do mundo e a senti-la, ser humano é tão simples como um sorriso de criança, ser humano engloba tudo o que o Universo tem de mais simples, porque é simples olhar para o lado e ver a nossa humanidade espelhada no outro, embora saiba que por vezes o que está sublimemente desenhado dentro de nós difere daquilo que na realidade é praticado, mas basta um pouco de luz numa gruta escura para fazer toda a diferença.

Mas os deuses deram-me muito mais que aquilo que lhes pedi…
Um dia inesperadamente as tuas mãos luminosas tomaram para si o orvalho da madrugada e o pó em que eu estava transformada, em todos os silêncios, em todas as sombras e moldas-te o meu corpo em conformidade com a minha alma, e aí tornei-me inteiramente Lua, renascida, recriada na medida Justa e Perfeita de mulher.

A minha Lua anseia pelo teu Sol
A minha Sombra anseia pela tua Luz
A minha alma e a tua são Sombra e Luz no Universo, desde o início dos Mundos que Lua e Sol, Sombra e Luz dão continuidade á Vida
Tu seguras a Espada Flamejante eu seguro o Cálice e assim se cumpre o ciclo da Vida, meu Senhor. Sim! Meu Senhor é a palavra Justa e Perfeita
Teu corpo cheira a Acácia em flor, eu disse-te - cheiras bem!

Disseste - Tu adoras-me…
Sim é verdade adoro tudo em ti, adoro a alegria dos teus 10 anos, adoro a Sabedoria, o Fogo, a Força, dos teus 52 anos, adoro os dias em que tens 80 anos, adoro os teus dias de Sombra, de Luz, de Silêncios, os teus dias de desilusão, de tristeza, os teus dias de alegria em que te apetece cometer loucuras e brincar com o mundo!
Aprendi que jamais devemos de deixar de dizer o que sentimos hoje, porque amanhã podemos não ter a oportunidade de dizer, o amanha poderá não existir e muito pode ficar por dizer, e nada deve ficar por dizer, só assim podemos perante o Universo ser testemunha um do outro!

Autor: Ba

terça-feira, 10 de maio de 2011

Miosótis

No início de 1934, logo após a ascensão de Adolf Hitler ao poder, ficou claro que a maçonaria alemã corria o risco de desaparecer. Em breve, a maçonaria alemã, que conhecera dias gloriosos e que tivera, nas suas colunas, os mais ilustres filhos da pátria alemã, como Goethe, Schiller e Lessingn, veria esmagado o espírito da liberdade sob o pretexto de impor a ordem e uma supremacia racial.
Quanto retrocesso, desde que Friedrich Wilhelm III, Rei da Prússia, em 1822, impediu que os esbirros reaccionários da Santa Aliança de Metternich fechassem as Lojas Maçónicas, declarando peremptoriamente que poderia descrever os Franco-Maçons prussianos, com toda a honestidade, como sendo os melhores dentre os seus súbditos…

As Lojas alemãs, na terceira década do século XX, estavam jurisdicionadas a onze Grande Lojas, divididas em duas tendências.
O primeiro grupo, de tendência humanista, seguindo os antigos costumes ingleses, tinha como base a tolerância, valorizando o candidato por seus méritos e não levando em consideração a sua crença religiosa. Constava de sete Grandes Lojas, a saber: Grande Loja de Hamburgo; Grande Loja Nacional da Saxônia, em Dresden; Grande Loja do Sol, em Bayreuth; Grande Loja-Mãe da União Eclética dos Franco-Maçons, em Frankfurt; Grande Loja Concórdia, em Darmstadt; Grande Loja Corrente Fraternal Alemã, em Leipzig; e, finalmente, a Grande Loja Simbólica da Alemanha.
O segundo grupo consistia nas três antigas Lojas prussianas, que faziam a exigência de que os candidatos fossem cristãos. Havia ainda a Grande Loja União Maçónica do Sol Nascente, não considerada regular, mas que também tinha tendências humanistas e pacifistas.
Voltando a 1934, a Grande Loja Alemã do Sol deu-se conta do grave perigo que iria enfrentar. Inevitavelmente, os maçons alemães estavam a partir para a clandestinidade, devido à radicalização política e ao nacionalismo exacerbado. Muitos adormeceram e alguns romperam com a tradição, formando uma espúria Franco-Maçonaria Nacional Alemã Cristã, sem qualquer conexão com a restante Franco-Maçonaria. Declararam abandonar a ideia da universalidade maçónica e rejeitar a ideologia pacifista, que consideravam como demonstração de fraqueza e como uma degeneração fisiológica contrária aos interesses do estado!

Os maçons que persistiam nos seus ideais precisaram encontrar um novo meio de identificação que não o óbvio Compasso e Esquadro, seguramente em risco de vida.
Há uma pequenina flor azul que é conhecida, em muitos idiomas, pela mesma expressão: não-me-esqueças – miosótis. Entenderam, os irmãos alemães, que esse novo emblema não atrairia a atenção dos nazistas, então a ponto de lhes fechar as Lojas e confiscar as propriedades.

Vergissmeinnicht, em alemão; forget-me-not, em inglês; forglemmigef em dinamarquês; ne m’oubliez pás, em francês; non-ti-scordar-di-me, em italiano; não-te-esqueças-de-mim, em português. Diz a lenda que Deus assim chamou a florzinha porque ela não conseguia recorda-se do próprio nome. O nome miosótis (Myosotis palustris) significa orelha de camundongo, por causa do formato das pétalas.
O folclore europeu atribui poderes mágicos ao miosótis, como o de abrir as portas invisíveis dos tesouros do mundo. O tamanho reduzido das flores parece sugerir que a humildade e a união estão acima dos interesses materiais, porque é notada principalmente quando, em conjunto, forma um bouquet no jardim.
De acordo com uma velha tradição romântica alemã, o nome da flor está relacionado às últimas palavras de um cavaleiro errante que, ao tentar alcançar a flor para sua dama, caíra no rio, com sua pesada armadura e afogara-se.
Outra história, diz que Adão, ao dar nomes às plantas do Jardim do Éden, não viu a pequena flor azul. Mais tarde, percorrendo o jardim para saber se os nomes tinham sido aceites, chamou-as pelo nome. Elas curvaram-se cortesmente e sussurravam a sua aprovação. Mas uma voz delicada a seus pés, perguntou: “- E eu, Adão, qual o meu nome?” Impressionado com a beleza singela da flor e para compensar seu esquecimento, Adão falou: “ – Como eu me esqueci, digo que vou chamá-la de modo a nunca mais esquecê-la. Seu nome será: não-te-esqueças-de-mim.”
Através de todo o período negro do nazismo, a pequenina flor azul identificava um Irmão. Nas cidades e até mesmo nos campos de concentração, o miosótis adornava a lapela daqueles que se recusavam a que se extinguisse a Luz.

Em 1945, o nazismo, com seu credo de ódio, preconceito e opressão, que exterminara, entre outros, também muitos maçons, era atirado para o lixo da História. Nas fileiras vitoriosas que ajudaram a derrotá-lo, estavam muitos maçons – ingleses, americanos, franceses, dinamarqueses, checos, polacos, australianos, canadenses, neozelandeses e brasileiros - desde monarcas, presidentes, comandantes aos mais humildes praças. Entre os alemães, alguns velhos maçons também sobreviveram e com o seu sofrimento ajudaram a redimir, de alguma forma, a memória contra histeria colectivista nazista. Eles eram o penhor da consciência alemã, a demonstração de que a velha chama da civilização alemã continuara, embora com luz ténue, a brilhar durante a barbárie.
Em 14 de Junho de 1954, a Grande Loja O Sol (Zur Sonne) foi reaberta, em Bayreuth, sob o ilustre irmão Dr. Theo Vogel, núcleo da Grande Loja Unida da Alemanha. Nesse momento, o miosótis foi aprovado como emblema oficial da primeira convenção anual, realizada por aqueles que conseguiram sobreviver aos anos amargos do obscurantismo. Nessa convenção, a flor foi adoptada, oficialmente, como um emblema Maçónico, em honra àqueles valentes Irmãos que enfrentaram circunstâncias tão adversas.
Finalmente, para coroar, quando Grão-Mestres de todo o mundo se encontraram nos Estados Unidos, o Grão-Mestre da recém formada Grande Loja Unida da Alemanha ofereceu a todos os representantes das Grandes Jurisdições ali presente um pequeno miosótis para colocar na lapela. O miosótis também é associado às forças britânicas que serviram na Alemanha, em especial na região do Rio Reno, logo após a guerra.
Há uma Loja, jurisdicionada à Grande Loja Unida da Inglaterra, a Forget-me-not Lodge nº 9035, Ludgershall, Wiltshire, que adotou a flor como emblema. Foi formada especialmente para receber os militares ingleses que voltavam do serviço na Alemanha.

Foi assim, que essa mimosa florzinha azul, tão despretensiosa, transformou-se num significativo emblema da Fraternidade – talvez hoje o mais usado pelos maçons alemães. Ainda hoje, na maioria das Lojas germânicas, o alfinete de lapela com o miosótis é dado aos novos Mestres, ocasião em que se explica o seu significado para que se perpetue uma história de honra e amor frente à adversidade, um exemplo para as futuras gerações Maçónicas e para todas as nações.

Autor: Júlio Verne - "In Ruy Luiz Ramires"
MiosótisEssa planta rasteira originária da Rússia, que geralmente tem entre 25 e 30 cm na fase de florescimento, possui pequenas flores azuis, flores brancas, flores rosadas está presente durante as primaveras nos mais belos jardins do planeta.
Deve ser cultivada sob o sol ou à meia sombra e é utilizada como forração de bordas em canteiros, além de fornecer um toque especial em composições de jardins de pedras. O Miosótis gosta de baixa temperatura, sendo que o seu cultivo é mais indicado em lugares de altitude.
Aquilo que pensamos ser as flores do Miosotis, na verdade são inflorescências terminais que se assemelham a espigas, longas, com formações de flores muito curtas e azuis.
A sua beleza é apreciada e encontrada nos jardins de diversos países em razão da facilidade do seu cultivo. Além disso, ela apresenta mais de 50 variedades. O Miosotis também é conhecido como Verónica.
Oferecer esta planta pode representar uma bela declaração como, por exemplo: “meu amor por ti é sincero”.
A forma das flores, com seus reduzidos tamanhos, sugere simplicidade, humildade e união como condições acima de interesses materiais.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O Maçon e a Sociedade Profana

A Maçonaria ao unir povos e nações, procura alertar não só para a necessidade de olhar para os problemas actuais da humanidade, como levar os Maçons a formar e a alterar consciências. O exercício de uma cidadania mundial, deve englobar o conjunto dos princípios, valores, atitudes e comportamentos que os povos e nações do mundo devem adoptar para a realização do desenvolvimento sustentável.
A Maçonaria mostra ao Maçom que ele tem um compromisso consigo mesmo, com o seu pensar e o que fazer de sua própria existência. Através do estudo da filosofia socrática aprendemos que, antes de mais nada, a primeira coisa é aprender a pensar. Para aprender a pensar é preciso saber ouvir, ouvir com atenção, buscando encontrar o sentido exacto das palavras de quem fala. E Sócrates ensina-nos que aprender a pensar é aprender a conhecer, a perceber, a discernir, a falar, a agir.
O progresso da Humanidade tem o seu início na aplicação das leis de justiça, de tolerância e da solidariedade, princípios sempre defendidos pela nossa Augusta Ordem. A Justiça nada mais é do que o respeito ao direito de cada um e a base para a convivência em sociedade.

A actuação de um Maçom em sociedade deverá pautar-se pela libertação dos seus vícios e preconceitos, pelo aprofundar das suas virtudes e pela procura do caminho que conduz à prática do bem. Deve também lutar pela plenitude dos direitos e, pela Justiça, fomentando os laços de uma verdadeira fraternidade, sem distinção de raças nem de crenças, condição indispensável para que haja realmente paz e compreensão entre todos. Deve ainda pautar a sua vida pela observância do preceito de ser livre, seguindo as normas de conduta moral dos indivíduos nas suas relações sociais.
Ser Maçom, é ser activo, consubstanciado no estado de espírito que deve caracterizar o membro presente em toda situação em que pode ajudar para que a sociedade se torne melhor. É ter consciência que a nossa discrição não é a omissão, mas que a nossa presença seja activa no apoio a projectos úteis à humanidade.
Na conduta social, a Maçonaria tem de ter uma dupla vertente essencial: reflectir e intervir sobre as regras e códigos morais que orientam a conduta humana e promover a harmonia e a união entre os seus membros, sempre na busca de novas soluções.
A ética está directamente relacionada ao estudo e determinação das condutas humanas no que diz respeito a certo e errado no contexto de uma determinada sociedade. A ética profissional tem como precedente a ética social, ou seja, antes de se determinar as condutas moralmente aceites ou esperadas de uma determinada actividade, existem padrões de comportamento estabelecidos por esta sociedade, à qual o exercício profissional e de cidadania está inserido e se deve reger.

No contexto actual da globalização, é notório a existência de uma crise de ideologia e de valores. O mundo todo está em crise, vivemos dias conturbados caracterizados por desentendimentos, corrupção, desperdícios, injustiças e violências. A ética deixou de ser um padrão de comportamento!
No entanto, a sociedade é a soma dos indivíduos que a compõem. Como depende do indivíduo, basta corrigir o comportamento do ser humano que ajusta-se a sociedade.
A ética que está em causa é a aquela que possibilita ao Homem pautar-se por pensamentos e acções que visem, entre outros, a dignificação humana, o respeito pelo direito à vida ou o melhoramento das condições de vida.

A Maçonaria através dos seus membros e Lojas deve procurar consciencializar os povos e nações na formação do ser humano, no conhecimento permanente, na participação activa nas sociedades e na procura de soluções.
Na sociedade profana e na vida Maçónica, o exercício de cidadania conquista-se, quando participamos no espaço público, quando sabemos escolher, podemos escolher e efectivamente escolhemos, devendo a nossa actuação saber agir para ter uma melhor qualidade de vida.

Viva a Maçonaria!

Autor: Laje

terça-feira, 26 de abril de 2011

2.º Encontro Internacional Lojas Amigas - Portugal

Conforme anunciado, realizou-se nos dias 20 a 25 de Abril de 2011 o 2.º Encontro Internacional de Lojas Amigas, em Portugal, com a presença de Lojas de França, Bélgica e Portugal. Estiveram presentes 11 Lojas de França; 1 Loja da Bélgica; 7 Lojas de Portugal.
Esta organização teve por base a realização do 2.º Encontro Internacional, sobre o tema: CIDADANIA E DIREITOS HUMANOS. Foram apresentados pelos presentes em representação das suas Lojas vários trabalhos sobre o tema, um colóquio de debate e a conclusão da necessidade do aprofundamento e da garantia dos Direitos Humanos no Mundo.
As Lojas exortaram à continuação do trabalho iniciado no Encontro para que próximo e dentro das próprias organizações a profusão dos ideais da Ordem sejam presentes e aplicados na fraternidade entre os Povos e Nações.

Este Encontro Internacional proporcionou a pessoas oriundas de França, Bélgica e Portugal - cerca de 30 franceses e belgas e, 20 portugueses - um vasto programa de divulgação e promoção do património, da cultura, da língua, da lusofonia.
Foram efectuadas diversas visitas ao território e monumentos portugueses, com visitas guiadas, debates e transmissão de conhecimentos, nomeadamente ao Vale do Sado, Castelo e Cripta de Alcácer do Sal com as influências romanas, Sintra esotérica e simbólica, Vila de Sintra, Palácio da Vila, Palácio Valenças, ao tesouro Templário, Vila Nova da Barquinha, Castelo de Almourol, Convento de Cristo Tomar e, naturalmente, Lisboa cidade da Luz, bem como, a evocação da data de 25 de Abril 1974 na Associação 25 de Abril.

A fraternidade, a sabedoria, a beleza estiveram presentes como valores primordiais: Viva a Maçonaria Universal!

terça-feira, 29 de março de 2011

O meu nome é Fidel Eduardo

Este é o primeiro trabalho desde que fui reconhecido Maçom: Felicidade de pertencer a tão fraterna e livre família!
A experiência de ser iniciado Maçom é de uma infindável miscelânea de sentidos e sentimentos, alguns introspectivos e de análise crítica do nosso “EU”, outros, humanistas e de cidadania, e ainda outros de mudança, de evolução e de sentimento de pertença que só irei esquecê-los quando partir…
Foi-me sugerido, na altura, que pensasse num “nome simbólico” com o intuito de proteger a minha identidade no mundo profano. Pareceu-me uma tarefa bem simples e fácil… contudo, após ter a percepção do simbolismo real, da emoção que aplicamos na sua feitura, da grandeza simbólica de um nome e do seu impacto na minha vida de Maçom… percebi afinal, que era uma empreitada exigente e difícil que merecia da minha parte um envolvimento e empenho que estivesse ao nível de tal desafio. Listei nomes, procurei na Internet, falei com vários Irmãos, e a verdade, é que não conseguia encontrar um nome… um nome que desse simbolismo… que representasse, aquilo que eu sentia ser importante interpretar! Um nome que falasse de mim, do meu “EU”, da linha de vida percorrida, das minhas lágrimas e sorrisos, deste chão que pisei ontem, que piso hoje e que pisarei amanhã! Um nome que condensasse em 5 ou 6 letras o meu mundo interior e envolvente! Para reduzir a abrangência da procura, decidi introduzir características nos nomes a procurar, pelo que decidi que o “meu” futuro nome, deveria cumulativamente ter as seguintes características:
• Simbolizar a FRATERNIDADE, valor (que para mim é) supremo e em que todos nos revemos.
• Teria de ter uma relação directa com o meu mundo, com a minha história, com as minhas memórias.
• Ser o nome de um homem por mim reconhecido como um homem, integro, justo, esclarecido, bondoso e lutador.
• Ter uma vida… uma existência em que ela própria fosse um símbolo… e ao mesmo tempo um exemplo.
• E por fim esse nome deveria tocar-me na minha essência…Trazê-lo no meu coração.

Esse homem, que partiu, que 33 anos antes, me viu nascer, da sua semente e do seu amor… só podia ser o meu Pai! Não era reconhecido Maçom… Não era iniciado… Não era Irmão… Mas hoje vejo e reconheço, que a sua vida no essencial, foi um exemplo que eu devo seguir como verdadeiro e hoje reconhecido Maçom. Quero por isso hoje aqui, exortar o seu nome e lembrar cada gota sangue que vendeu para suportar a pobreza que nos era imposta… Quero exortar a sua memória, para não esquecer as noites não dormidas a trabalhar 8, 12, e 14 horas, para que o pouco não fosse nada. Quero lembrar a sua voz de alento, que em coro com a minha mãe me transmitia, amor, confiança e segurança. Quero erguer no nosso templo, todos os dias o seu nome, quando por mim os meus irmãos me chamarem, de forma que esteja presente o seu carinho, rude mas sincero, envergonhado mas verdadeiro, distante mas atento, discreto mas presente. Quero lembrar-me das suas cavalitas… dos seus ensinamentos que me fizeram o homem que sou hoje!

O meu Pai, sempre me olhou com amor… mesmo zangado… os seus olhos não conseguiam deixar de me amar. Ahh…o meu Pai Fidel … sim o meu Pai, carteiro de profissão, dador de sangue profissional, homem do povo com lancheira, pobre, a trabalhar por turnos e horas extraordinárias infinitas que pouco dinheiro produziam… O meu Pai Fidel lutou, essencialmente por nós… O meu querido Pai… deixava de comer pelos 4 filhos! Tentava com a sua voz de Homem Grande que era, falar baixo para não nos acordar… afinal, ele gostava de nos ver dormir!O meu Pai era um Homem Bom… um homem com valores morais, com princípios, com ética, com carácter e personalidade que eu hoje, e em toda a minha vida quero lembrar e honrar.

Ainda o Amo e quero lembrá-lo mais vezes…Por isso escolhi o seu nome, Fidel Eduardo… Lembrem-no comigo… Ele merece!

Autor: Fidel Eduardo