terça-feira, 26 de março de 2013

A Carbonária

Sobre a Carbonária, o único escritor, no Brasil, que se dedicou realmente em trazer algum esclarecimento, foi o Irmão Adelino de Figueiredo Lima, por isso, vamos transcrever apenas uma pequena introdução que ele fez da Carbonária: "Nenhuma Sociedade Secreta fascinou tanto as multidões sequiosas de sua liberdade, ou da independência política conquistada à custa de lágrimas e sangue, quanto a Maçonaria Florestal, mais conhecida como "Carbonária", por ter sido fundada pelos carvoeiros da Hannover, como associação de defesa e de acção contra os opressores e assaltantes de sua classe. Constituída no último quartel do séc. XV, ela só veio a entrar na História, como organização de carácter político, após a Grande Revolução Francesa. Na Itália, adquiriu fama de violenta e sanguinária, e introduzida em França por ordem de Napoleão, não tardou em converter-se na mais poderosa força oposicionista ao expansionismo do grande corso, lutando contra ele na França, na Áustria, na Espanha e em Portugal.”

O nome de "Maçonaria Florestal", veio depois que irrompeu, em Itália e França. "Maçonaria", porque os Maçons a propagavam e a protegiam, "Florestal", porque as Iniciações dos seus Membros, lembravam as dos antigos Carvoeiros de Hannover, realizadas nas florestas mais densas, a cobertos das vistas estranhas. 
Os Carbonários, antes de serem investidos nos Segredos da Ordem, passavam por duras provas e prestavam os mais terríveis juramentos, como este, que eram assinados com próprio sangue: "Juro perante esta assembleia de homens livres, que cumprirei as ordens que receber, sem as discutir e sem hesitar, oferecendo o meu sangue em holocausto, à libertação da Pátria, à destruição do inimigo e à felicidade do Povo. Se faltar a este juramento, ou trair os desígnios da Poderosa Maçonaria Florestal, que a língua me seja arrancada e o meu corpo submetido ao fogo lento por não ter sabido honrar a Pátria que foi meu berço.” 
Só depois deste juramento é que o Candidato recebia as insígnias de Bom Primo, – as insígnias de Bom Primo consistiam de um balandrau preto e capuz, tendo bordado, em branco, no peito, um punhal (o punhal de São Constantino), com o cabo no formato cruciforme entrelaçado a uma cruz cristã.) O punhal de São Constantino não constava somente de um desenho bordado no Peito do Balandrau Preto, era também uma arma branca, que todos os Carbonários usavam – também nas suas execuções – como símbolo da Ordem a qual pertenciam. 
O Balandrau Preto, dos líderes, ao invés do Punhal e da Cruz entrelaçados – possuía bordado no peito, em dourado, um sol radiante. 
O brado de guerra dos Carbonários consistia em, cada um, levantar o seu punhal bem alto. Normalmente as reuniões dos tribunais carbonários eram realizadas, a exemplo dos carvoeiros de Hannover, no passado, em plena floresta, bem distante dos olhares curiosos e indevidos. 
Os julgamentos eram implacáveis e os réus, se condenados, eram executados com a máxima eficiência. O Carbonário era, as vezes, juiz e carrasco ao mesmo tempo. Os afiliados (jamais podiam trair a Ordem. Os que traíram, sempre foram exemplarmente executados) tornavam-se Carbonário ou executor das ordens de "Alta Venda". 

Em cada país a Organização da Maçonaria Florestal obedecia ao esquema italiano: 
"Alta Venda", corpo deliberativo superior, composto de um Delegado da cada "Barraca", composta por sua vez por um Delegado de cada "Cabana", e as "Cabanas" eram formadas por um Delegado de cada "Choça". Acima da "Alta Venda" estava porém, a "Jovem Itália", composta por um triunvirato que nas lutas pela Unificação e pela queda do Poder Temporal dos Papas, era constituído por Cavour, Mazzini e Garibaldi. 
A Carbonária Italiana, de princípio, foi protegida pelo Carbonário Lucien Charles Napoleão Murat, General de Napoleão Bonaparte e Princípe de Monte Corvo, filho do Marechal Murat, nascido em Milão, em 1803. Ele abandonou a Itália em 1815, com a derrocada de Napoleão em Waterloo, tendo sido capturado em Espanha. Após a sua libertação, seguiu para os Estados Unidos, em 1825. Ali se casou, tendo retornado a Paris em 1848.
Mais tarde, Murat foi eleito Grão Mestre do Grande Oriente, conseguindo um progresso muito grande no erguimento da Obediência, com a fundação de muitas novas Lojas. 

Um dos elementos que se deve destacar na Carbonária Italiana – não pelos seus actos patrióticos, mas sim pela sua traição à Carbonária – é o Conde Peregrino Rossi. Rossi teve duas atitudes distintas: na mocidade, foi um dos mais activistas e propagandistas dos ideais da Carbonária, merecendo o respeito de todos os Bons Primos. Todavia, de um momento para outro, bandeou-se para as hostes inimigas. 
Rossi aliou-se ao Papa Gregório XVI com a finalidade de conseguir do Papa, condenações às acções dos Jesuítas. Nesse ínterim, morre Gregório XVI e sobe ao Trono de São Pedro o Papa Pio IX, ao qual Rossi se afiliou de corpo e alma. Rossi, que fora até Roma para combater o jesuitismo, volta um fiel defensor dos Irmãos de Inácio de Loyola. É proscrito da Carbonária em 1820 e se torna um novo Saulo, convertendo-se aos ideais do Papa. 
- Era o novo Judas, gritavam em todas as Barracas, de punhal em riste, os Bons Primos, seus antigos companheiros.
Conhecedor que era dos métodos de seus antigos companheiros, Rossi teve muita facilidade de nomear seus líderes e encher as prisões da Cidade Eterna, dando um tremendo golpe no movimento revolucionário.
Rossi cada vez mais se dedicava a uma acção repressiva, sem pensar que, desde a mais humilde Choça à mais pujante Barraca, e com Giuseppe Mazzini tendo o controle de todas as Altas Venda - os punhais de São Constantino eram levantados e descreviam no ar o ângulo recto das decisões fatais. A sentença estava lavrada, terrível e implacável.

Havia sido marcada uma reunião para o dia 15 de Novembro, a 1 hora da tarde, com o Ministro Conde Peregrino Rossi. Dissera Rossi no dia anterior: "- Se me deixarem falar, se me derem tempo para pronunciar o meu discurso, não só a Itália estará salva, como ficará definitivamente morta a demagogia da Península". A demagogia da península era o movimento Carbonário. "- La causa del Papa es la causa del Dio". 
Conde Peregrino Rossi desceu as escadarias e entrou na carruagem que o levaria ao Parlamento. 
Chegando à praça, a carruagem atravessou lentamente a multidão e entrou pela porta do Palácio e foi parar em frente ao vestíbulo, onde Peregrino Rossi foi saudado por assobios e gritos enraivecidos: 
- Abaixo o traidor!
- Morte ao vendilhão da Pátria!

Só então Rossi se apercebeu que nem toda a consciência nacional estava encarcerada na Civiltá Véchia. 
Esboçou um sorriso contrafeito para a multidão e quando se dispunha a continuar a marcha, recebeu um golpe na carótida, especialidade dos Bons Primos, que o fez tombar agonizante. No bolso interno da sobrecasaca, ao ser recolhido o cadáver, foi encontrada a sentença de morte: "Juraste lutar pela unificação da Itália e traíste o juramento! Lembrando: Juro que jamais abandonarei as armas ou desertarei do Movimento Patriótico, enquanto a Itália não for livre e entregue a um governo do Povo, para o Povo. Se eu faltar a esse juramento, prestado de minha livre e espontânea vontade, que o pescoço me seja cortado e o meu nome desonrado e apregoado como o mais vil traidor à Pátria e aos Bons Primos da Carbonária Italiana. Com coisas sérias não se brinca!” 

Como vimos, a Carbonária estava distante da Maçonaria, mas apesar disso, sempre foi confundida com a Maçonaria, até por Maçons bisonhos que acreditam que no passado a Maçonaria executava Irmãos e profanos que não rezassem por sua cartilha. De vez em quando, ouvimos um Irmão dizer que a Maçonaria precisa voltar a ser o que era no passado, e executar os maus elementos da sociedade.

A Maçonaria em tempo algum executou os maus elementos da sociedade. Quem, às vezes fez isso, foi a Carbonária, a Maçonaria não. A Maçonaria sempre foi pacífica, respeitadora da lei e ordem. Só usando sua estrutura fechada para lutar contra os maus regimes políticos e algumas instituições nocivas, mas sempre ordeira e pacificamente. Seus membros, sim, às vezes, independentemente de suas Lojas, se filiavam a movimentos ou grupos vingadores.

Bons Primos Carbonários – Imãos Para Sempre!

Autor: Xico TRolha
Texto extraído do livro "Itambé, Berço Heróico da Maçonaria no Brasil", Ed. "A Trolha", 1996.

terça-feira, 12 de março de 2013

Construir a Maçonaria Europeia

Toda a construção, toda a mudança é necessariamente um empreendimento complexo, aventureiro, imprevisível, inquietante e pode ser mesmo perigoso. Mas quem somos? Não somos os herdeiros dos construtores das catedrais? Não aprendemos a arte do traço e da dimensão da pedra bruta? Ignoramos a maneira de ajustar as pedras mesmo as mais dissimilares? 
Nós temos as ferramentas legadas pelos nossos antecessores, os métodos de trabalho, o pensamento e certas fórmulas capazes de nos pôr na via de tal alquimia. Também vos digo, estou optimista: é disto que vos falo, ou seja da construção de uma maçonaria europeia, está sob os nossos olhos, em redor do pavimento de mosaico: Os Imãos e as Irmãs franceses, portugueses, belgas e mesmo brasileiros! Ritos e Obediências, fortemente diferentes e no entanto capazes de se reunir para trabalhar juntos!!! Não duvido que o que podemos fazer uma vez, poderemos efectivamente faze-lo outras vezes. Tal pode tornar o nosso encontro exemplar, embora não seja uma excepção.

Assisti na Europa a iniciativas semelhantes. Penso, por exemplo nos encontros anuais organizados pelas R. L. Hiram do Rito Francês, GODF e Withe Swan do REAA, GLDF, ambas a Oriente de Londres; A RL Estrela D’Alva, programou para Lisboa, um Encontro sobre o tema da «cidadania na Europa»: um projecto que deverá reunir as Lojas portuguesas naturalmente, mas também as francesas, espanholas, brasileiras e belgas, sem distinção de Rito, Obediência ou de sexo. Penso nos projectos programados pela R. L. Cosmodicée com a sua Loja gémea em 2015 em Mons, os quais St Jean subscreve totalmente. 


Sublinhou bem VM, que em cada uma das vezes estas iniciativas germinaram na estrutura elementar da Ordem Maçónica, isto é, na LOJA! Por ser no interior da Loja e a partir dela que se construíram e se constroem ainda, todos os projectos duradouros e bem fundados. Sendo, ainda, dentro da Loja, que se operam as transformações da matéria, seja íntima ou não, individual ou colectiva… Sendo a partir da Loja e de nenhum outro lugar que chegamos e chegaremos a levar para o exterior do Templo o que aprendemos aqui. 
Sabemos, porque o praticamos, direi que diariamente. O Oriente de Tours é deste ponto de vista exemplar, dado que 15 Lojas de Ritos diferentes e pertencendo a 5 Obediências, trabalham desde há vários anos em conjunto. Certamente este trabalho é essencialmente administrativo e de gestão material, mas não só. Estas vicissitudes do tipo profano, incontestavelmente favoreceram e mantiveram as relações, as visitas, os projectos e os trabalhos comuns. Penso na associação « laço de união europeia » sonhada pelo nosso saudoso Irmão Paul Bachelard que foi membro da R. L. os Démophiles. Penso igualmente nas iniciativas comuns acerca da laicidade. Mais distante no tempo recordo-me de duas exposições internacionais sobre a maçonaria organizadas em Tours. De maneira mais trivial, mas porque não, penso em certas fraternais actividades e festas locais. Eu mesmo soube recentemente que Irmãos e Irmãs de várias Lojas montaram um grupo musical inter-obediências. Sem procurar muito longe, esta sessão e a presença dos nossos Irmãos portugueses e belgas, só foi possível graças à colaboração das lojas d’Indre-et-Loire e até de outras. Lojas do GODF, mas não só. 
Defendo que é ao nível da Loja e a partir dela só, que a construção europeia será possível. Cabe-nos a nós demonstrá-lo. Claro que não nego que as nossas obediências não tenham tentado trabalhar em conjunto? As três principais Obediências aqui representadas, o GODF, o GOL e o GOB, assinaram tratados, encontram-se, participam em estruturas e delegações comuns. Elas têm a legitimidade e o poder e é bem assim.

Mas faço uma pergunta: porque não se vai além da simples manifestação de princípio acerca de valores comuns, diria pontualmente? No meu entender por duas razões essenciais: A primeira prende-se as nossas histórias respectivas e com o facto de as nossas obediências serem construídas à escala das nações, com a herança das nações e os reflexos das nações!!! Ora, o processo de mundialização, questiona em primeiro lugar as fronteiras das nações!!! Questiona seguidamente as mobilidades que fazem os homens atravessar mais facilmente as fronteiras e poderem encontrar-se longe dos seus Orientes nacionais. Contra isso, as nossas Obediências são actualmente impotentes, e não vejo nada que possa surgir como um começo de resposta da sua parte. Uma resposta que testemunhasse uma transformação e uma adaptação da maçonaria a este novo dado. A segunda razão remete-nos para a questão iniciática. Construir com o Outro, é renunciar a uma parte de si mesmo, é entrar num processo de despojamento para ir ao essencial na humildade e sobretudo no respeito pelo Outro. Nada se pode fazer se não estivermos persuadidos de que não sabemos tudo, que não trazemos toda a Luz só para nós e que a nossa parte de sombra não é menor que a do outro, seja irmão ou irmã. Nós não somos a Ordem. Não, nós ocupamos um lugar, certamente privilegiado, mas igualmente efémero e relativo. 

Tudo isto se consegue do trabalho em Loja! Este conhecimento não existe em nenhum outro lugar ou não é utilizado como tal, ou bem que ainda o é, mas de maneira muito insuficiente. Como disse há pouco, eu não sou pessimista. Será que um dia as nossas Obediências conseguem trabalhar permanentemente juntas e construir de facto a Europa Maçónica que desejamos? Mas primeiro será necessário que os trabalhos anteriormente efectuados pelas Lojas Europeias Livres (e porque não para além da Europa), as lojas compostas de maçons e maçonas livres, tenham favorecido a subida da seiva que verá desabrochar os frutos no cume das nossas árvores respectivas…
Para terminar por agora, vou buscar por minha iniciativa esta citação de Paul Bachelard que concluía um artigo escrito em 2008. «Propor às irmãs e aos irmãos que ponham conjuntamente e em processos mais longos que a anualidade, as suas reflexões e trabalhos sobre os temas essenciais da renovação da nossa sociedade, é pôr em curso uma dinâmica colectiva. A noção de ordem maçónica deve tomar o passo sobre as Instituições gestoras, para se fazer ouvir, a uma só voz, forte, a diversidade e a unidade profunda do humanismo maçónico».

Camille Desmoulins - RL Saint Jean - Oriente Tours - GODF